Manifesto Antropofágico do RPG Nacional

Uma reflexão sobre o jogar/criar RPG em toda sua brasilidade.

O texto abaixo foi escrito por Luiz Claudio Gonçalves, com forte inspiração no “Manifesto Antropofágico (1928)” de Oswald de Andrade e o “Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira (1988)” de Ivan Carlos Regina. 

O texto foi editado e revisado por José Fontenelle; recebendo comentários de ilustres escritores como Jorge Valpaços, Lucas Nascimento, Ingryd Sant’Ana, Peregrino Wernek, Xikowisk, Fabiano Neme, Cesar Milman, Jefferson Nascimento, Carlos “Combo” Pereira, Paula Guimarães, Adrielle Zephirot Gaen, Daniel Paes Cutter, Lucas Malk, Cleiton “Velho Lobo do Mar” Gimenes, Anésio Vargas, Felipe R Brasil , Felipe Goodman  e Rodolfo Barbosa.

MANIFESTO ANTROPOFÁGICO DO RPG NACIONAL

Há séculos fomos testemunhas e vítimas de uma das maiores e piores invasões da História. Nenhuma obra de ficção faria justiça ao horror que vivemos. Eles vieram em caravelas, colonizaram nossas mentes, violaram nossa cultura e contaram outra história. Um genocídio que poderia ser forjado apenas pelo barbarismo da civilização.

O tempo passou e o país se fez independente. Porém, as mentes continuam servis. Aprisionados pelos mesmos grilhões ideológicos que nos mantinham escravizados. Um espelho sujo que distorce nosso reflexo, menosprezando as mulheres, tratando nossos nativos como selvagens e demonizando a beleza da cultura afro. 

E não são mais os estrangeiros que impõem suas doutrinas sobre nosso povo. Não, somos nós mesmo que insistimos em, todos os dias, negar nossa própria cultura pela importação de conceitos e paradigmas que não são nossos. Desfilamos com os grilhões da subserviência como se joias fossem. 

O louvor ao estrangeiro silencia as vozes nacionais, enferruja a pluralidade, emudece nossa cultura e mantém a produção distante da nossa realidade. A consequência é que autores e artistas muitas vezes se enxergam como estrangeiros, sempre distantes do público que adquire seus produtos. 

Assim chegamos ao âmago deste manifesto antropofágico. Que continuemos a devorar a tradição dos jogos gringos, mas digerir com o “feijão com arroz” do nosso molejo, gingado e pluralidade para, enfim, construirmos uma forma de jogo que reflita nosso “jeitinho” de lidar com as regras e o pensar RPG —  ou Jogo de Interpretação de Papeis.

Que os cenários se façam com os ingredientes clássicos de “JRR Tolkien”, “Arthur Machen” ou “Robert Howard” sem, contudo, negar os temperos de “Jerônimo Monteiro”, “Emília Freitas”, “Álvares de Azevedo”, “Campos de Carvalho”, “Joaquim Manuel de Macedo”, “Érico Veríssimo”, “Câmara Cascudo”, “Machado de Assis” e tantos outros brasileiros cuja criatividade alimenta a fantasia nacional.

Longe de encontrar soluções ou fórmulas prontas, nossa proposta se concentra no exercício, na busca, na reflexão, de como o “olhar para dentro” nos permite rolar dados para além do coloquial. Pensar em como seria um jogo onde elfos capoeiristas e curupiras cavaleiros pudessem enfrentar dragões e boytatas. Ou pajés vasculhando as noites paulistas caçando vampiros e corpos secos. E, quem sabe, anões babalaôs invocando orixás em naves espaciais movidas à axé. 

Para além da mera repetição do que vem de fora, poderíamos buscar inspiração em nosso admirável mundo conhecido, para criar jogos de RPG capazes de refletir a mistura que nós somos. 

Por Luiz Claudio Gonçalves 


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